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Mineração: Brasil aprova lista de 27 minerais críticos e estratégicos

Gustavo Cruz

Nova classificação federal divide recursos minerais em três níveis de prioridade e orienta investimentos, incentivos fiscais, pesquisa mineral e industrialização. Medida pode transformar a participação do Brasil nas cadeias globais de minerais estratégicos.

O Brasil deu um passo importante na estruturação de sua política mineral. Na quinta-feira, 5 de novembro de 2026, o Conselho Nacional para Industrialização de Minerais Críticos e Estratégicos (CIMCE) aprovou a primeira lista oficial de 27 substâncias e grupos minerais considerados críticos ou estratégicos para o desenvolvimento econômico, industrial e tecnológico do país.

A decisão estabelece prioridades para a aplicação dos instrumentos previstos na Política Nacional de Minerais Críticos e Estratégicos (PNMCE), instituída pela Lei nº 15.506, de 16 de setembro de 2026.

Entre os recursos classificados com prioridade máxima estão terras raras, grafita, lítio, níquel, cobalto, cobre, manganês, silício e urânio. Esses materiais desempenham funções importantes em cadeias industriais relacionadas à transição energética, mobilidade elétrica, tecnologias digitais, defesa e infraestrutura.

A classificação representa mais do que o reconhecimento da importância econômica desses recursos. Ela estabelece parâmetros para orientar investimentos públicos e privados, reduzir vulnerabilidades de abastecimento e incentivar o desenvolvimento de atividades industriais de maior valor agregado em território nacional.

O que são minerais críticos e estratégicos?

Embora frequentemente utilizados em conjunto, os conceitos de minerais críticos e estratégicos possuem significados diferentes.

Minerais críticos são recursos necessários a setores fundamentais da economia cuja disponibilidade pode estar ameaçada por fatores como dependência de importações, concentração geográfica da produção, riscos geopolíticos e limitações tecnológicas.

Já os minerais estratégicos apresentam relevância econômica para o país, considerando fatores como reservas significativas, desenvolvimento tecnológico, geração de superávit comercial e desenvolvimento regional.

Essa distinção é importante porque um mineral pode ser estratégico mesmo quando não existe risco imediato de desabastecimento.

Portanto, a classificação não depende apenas das características geológicas das substâncias, mas também de sua posição nas cadeias produtivas e dos interesses econômicos nacionais.

Conheça os 27 minerais críticos e estratégicos aprovados

A lista aprovada pelo CIMCE organiza as substâncias em três classes, considerando sua importância para a soberania nacional, o desenvolvimento industrial e os riscos associados ao abastecimento.

Classe I — Prioridade alta

A primeira classe reúne nove substâncias ou grupos considerados de elevada relevância nacional:

  • Terras raras
  • Grafita
  • Lítio
  • Níquel
  • Cobalto
  • Cobre
  • Manganês
  • Silício
  • Urânio

Esses recursos possuem aplicações em diferentes segmentos industriais.

O lítio, o níquel, o cobalto, o manganês e a grafita são utilizados em tecnologias de armazenamento de energia, especialmente na fabricação de baterias.

O cobre é fundamental para sistemas elétricos, redes de transmissão e equipamentos industriais. O silício apresenta aplicações na indústria eletrônica e em tecnologias fotovoltaicas.

As terras raras são utilizadas em diversas aplicações tecnológicas, incluindo ímãs permanentes de alto desempenho, motores elétricos e equipamentos eletrônicos.

Já o urânio possui importância estratégica para a geração de energia nuclear.

Classe II — Prioridade média

A segunda classe reúne oito substâncias:

  • Tungstênio
  • Cromo
  • Vanádio
  • Tântalo
  • Titânio
  • Fosfato
  • Potássio
  • Enxofre

Entre os destaques estão o fosfato, o potássio e o enxofre, utilizados em cadeias relacionadas à produção de fertilizantes.

A disponibilidade desses insumos possui relação direta com a segurança alimentar e a competitividade do agronegócio brasileiro.

Outros recursos, como tungstênio, cromo, vanádio, tântalo e titânio, possuem aplicações em ligas metálicas, equipamentos industriais, componentes eletrônicos e materiais de alto desempenho.

Classe III — Prioridade baixa

A terceira classe reúne dez substâncias ou grupos:

  • Nióbio
  • Estanho
  • Ferro
  • Zinco
  • Ouro
  • Magnésio
  • Molibdênio
  • Tório
  • Alumínio
  • Grupo da platina

É importante esclarecer que a classificação como prioridade baixa não significa que esses minerais tenham pouca importância econômica ou tecnológica.

O ferro, por exemplo, continua sendo um dos principais produtos da mineração brasileira e possui papel fundamental na indústria siderúrgica e na balança comercial.

O nióbio também apresenta elevada importância tecnológica, especialmente na fabricação de aços especiais e ligas metálicas de alto desempenho.

A classificação reflete a prioridade relativa de atuação governamental segundo os critérios adotados.

Como o governo definiu as prioridades?

A classificação foi construída a partir de estudos técnicos e da avaliação de cinco parâmetros principais:

1. Risco geopolítico: possibilidade de interrupções no fornecimento em razão de conflitos internacionais, disputas comerciais e restrições à exportação.

2. Concentração geográfica da produção: avaliação da dependência de poucos países produtores ou processadores.

3. Potencial de substituição: possibilidade de substituir determinada substância por outros materiais ou tecnologias.

4. Posição brasileira na cadeia produtiva: capacidade nacional de participar das etapas de pesquisa, extração, beneficiamento e transformação industrial.

5. Dependência externa: exposição do país às importações de matérias-primas, tecnologias e insumos necessários aos setores estratégicos.

A metodologia considera não apenas a disponibilidade de recursos minerais, mas também as necessidades de desenvolvimento econômico, industrial e tecnológico do Brasil.

Política prevê até R$ 2 bilhões para fundo garantidor da mineração

Um dos principais instrumentos da nova política é o Fundo Garantidor da Atividade Mineral (FGAM).

Previsto na Lei nº 15.506/2026, o fundo foi concebido para compartilhar riscos financeiros e facilitar o acesso ao crédito para empreendimentos minerais.

A legislação estabelece a possibilidade de aporte de até R$ 2 bilhões pela União, além da participação de estados, municípios e agentes privados.

A medida procura enfrentar uma das principais dificuldades do setor: o financiamento de projetos minerais, especialmente nas etapas iniciais de pesquisa e desenvolvimento.

A pesquisa mineral envolve investimentos significativos e riscos elevados, uma vez que a identificação de ocorrências minerais não garante a existência de depósitos economicamente aproveitáveis.

Nesse contexto, mecanismos de compartilhamento de riscos podem contribuir para ampliar a participação de instituições financeiras e investidores no desenvolvimento de projetos.

Entretanto, a existência do fundo não representa liberação automática de recursos. Sua operacionalização dependerá das regras e condições aplicáveis.

Incentivos fiscais poderão alcançar R$ 1 bilhão por ano

Outro instrumento relevante é o Programa Federal de Beneficiamento e Transformação de Minerais Críticos e Estratégicos (PFMCE).

A legislação prevê créditos fiscais para estimular investimentos em beneficiamento, transformação mineral e mineração urbana.

Entre 2030 e 2034, o programa terá limite global de R$ 1 bilhão por ano em créditos fiscais, conforme as condições estabelecidas em lei e regulamentação.

A proposta procura estimular a instalação e a ampliação de unidades industriais capazes de transformar recursos minerais em produtos de maior valor agregado.

Isso pode incluir instalações de processamento mineral, produção de materiais destinados à indústria de baterias e desenvolvimento de insumos para cadeias industriais de alta tecnologia.

Da exportação de minérios à industrialização: o principal desafio brasileiro

A aprovação da lista ocorre em um contexto de crescente disputa internacional pelo acesso a matérias-primas essenciais às tecnologias contemporâneas.

A expansão da mobilidade elétrica, dos sistemas de armazenamento de energia, das fontes renováveis e da infraestrutura digital aumenta a importância de determinadas substâncias minerais.

Entretanto, possuir recursos geológicos não significa necessariamente controlar as cadeias industriais associadas a eles.

Entre a extração de um minério e a fabricação de um produto tecnológico existem diversas etapas, que podem envolver concentração, separação, purificação, refino, transformação química, metalurgia e fabricação de componentes.

Cada uma dessas atividades exige investimentos, conhecimento especializado, infraestrutura e domínio tecnológico.

Por isso, a ampliação da produção mineral, isoladamente, não garante que o país capture a maior parcela do valor econômico gerado por esses recursos.

A estratégia brasileira procura fortalecer a integração entre mineração, indústria, ciência, tecnologia e inovação.

Para alcançar esse objetivo, será necessário enfrentar desafios relacionados à infraestrutura logística, disponibilidade de energia, financiamento, competitividade industrial, formação de profissionais e desenvolvimento de tecnologias de processamento.

O que muda para as empresas mineradoras?

A definição das prioridades poderá influenciar decisões de investimento e desenvolvimento de projetos minerais no Brasil.

Empreendimentos relacionados às substâncias classificadas poderão buscar enquadramento nos instrumentos de financiamento e incentivo previstos na política, desde que atendam aos requisitos estabelecidos.

A política também introduz mecanismos de acompanhamento de operações societárias e contratos relacionados a minerais estratégicos.

Para as empresas, o novo cenário reforça a importância do planejamento de longo prazo, da avaliação de oportunidades de agregação de valor e do acompanhamento das exigências regulatórias.

Projetos que integrem pesquisa mineral, desenvolvimento tecnológico, processamento industrial e compromissos socioambientais poderão apresentar maior alinhamento aos objetivos da política.

Pesquisa mineral, geometalurgia e inovação tecnológica ganham importância

A ampliação das cadeias produtivas de minerais críticos e estratégicos também deverá aumentar a demanda por conhecimento técnico especializado.

O desenvolvimento de projetos relacionados a esses recursos exige investigações geológicas, caracterização mineralógica, avaliação de depósitos, modelagem geológica e estimativa de recursos minerais.

Entretanto, conhecer a quantidade e a distribuição espacial de um recurso mineral não é suficiente para determinar sua viabilidade econômica.

É necessário compreender suas propriedades mineralógicas, características físicas e químicas, comportamento durante o processamento e potencial de recuperação dos elementos de interesse.

Nesse contexto, a geometalurgia ganha relevância por integrar informações geológicas, mineralógicas e metalúrgicas para apoiar decisões sobre o aproveitamento dos recursos minerais.

Essa abordagem pode contribuir para melhorar a previsibilidade do desempenho dos processos, reduzir incertezas e identificar alternativas tecnológicas para o beneficiamento de minérios complexos.

O desenvolvimento de cadeias associadas às terras raras, ao lítio, ao grafite e a outros minerais também exigirá avanços em tecnologias de separação, concentração, purificação e transformação industrial.

Sustentabilidade e desenvolvimento regional também fazem parte da política

A Política Nacional de Minerais Críticos e Estratégicos incorpora objetivos relacionados à sustentabilidade, à redução de emissões e ao desenvolvimento regional.

A ampliação da atividade mineral e industrial também traz desafios relacionados ao consumo de água e energia, à geração de rejeitos e resíduos, à ocupação territorial e aos impactos sobre comunidades.

O desenvolvimento de novas cadeias produtivas deverá ser acompanhado por planejamento ambiental, gestão de riscos, soluções tecnológicas e mecanismos de acompanhamento dos impactos.

A efetividade da política dependerá da capacidade de conciliar competitividade econômica, segurança operacional, proteção ambiental e geração de benefícios sociais duradouros.

Quais serão os próximos passos?

Durante a primeira reunião do CIMCE, também foi definido que o Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC) deverá apresentar, no prazo de 15 dias, uma proposta de cadeias produtivas prioritárias para o Plano Nacional de Minerais Críticos e Estratégicos.

Essa etapa será importante para detalhar quais segmentos industriais deverão receber maior atenção no desenvolvimento da política.

A lista de substâncias também poderá passar por atualizações, conforme as disposições legais e as avaliações do conselho.

Entre os pontos que merecem acompanhamento estão a regulamentação dos mecanismos de financiamento, a operacionalização dos incentivos fiscais, os critérios de elegibilidade dos projetos e as diretrizes para investimentos estrangeiros.

Uma oportunidade para transformar o potencial mineral brasileiro em desenvolvimento

A aprovação da lista de 27 minerais críticos e estratégicos representa um avanço na organização das prioridades da política mineral brasileira.

O país passa a contar com uma classificação vinculada a instrumentos de financiamento, incentivos fiscais, monitoramento estratégico e desenvolvimento industrial.

O principal desafio será transformar essas diretrizes em resultados concretos.

A disponibilidade de recursos minerais constitui uma vantagem importante, mas sua conversão em desenvolvimento econômico depende da capacidade de gerar conhecimento, desenvolver tecnologias, atrair investimentos e fortalecer a indústria nacional.

Nesse processo, a formação e a qualificação de profissionais serão fundamentais para atender às novas demandas técnicas, científicas e industriais.

A integração entre mineração, pesquisa, inovação tecnológica, sustentabilidade e educação profissional poderá determinar a capacidade brasileira de ocupar posições de maior valor nas cadeias globais de minerais críticos e estratégicos.

Mais do que ampliar a extração mineral, o desafio brasileiro será transformar sua riqueza geológica em conhecimento, tecnologia, indústria e desenvolvimento sustentável.

Referências

1. Casa Civil da Presidência da República (2026). Governo Federal aprova lista brasileira de minerais críticos e estratégicos.

https://www.gov.br/casacivil/pt-br/assuntos/noticias/2026/novembro/governo-federal-aprova-lista-brasileira-de-minerais-criticos-e-estrategicos

2. Brasil. Lei nº 15.506, de 16 de setembro de 2026. Política Nacional de Minerais Críticos e Estratégicos.

https://www2.camara.leg.br/legin/fed/lei/2026/lei-15506-16-setembro-2026-799928-publicacaooriginal-181356-pl.html

3. Ministério de Minas e Energia (2026). CIMCE aprova lista de minerais críticos e estratégicos da PNMCE.

https://www.gov.br/mme/pt-br/assuntos/noticias/novembro-26/cimce-aprova-lista-de-minerais-criticos-e-estrategicos-da-pnmce

4. Secretaria-Geral da Presidência da República (2026). Conselho Nacional aprova lista de 27 minerais críticos e estratégicos.

https://www.gov.br/secretariageral/pt-br/noticias/2026/novembro/conselho-nacional-aprova-lista-de-27-minerais-criticos-e-estrategicos

5. Empresa Brasil de Comunicação (2026). Governo Federal aprova lista brasileira de minerais críticos e estratégicos.

https://radiogov.ebc.com.br/programas/e-noticia/governo-federal-aprova-lista-brasileira-de-minerais-criticos-e-estrategicos

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Gustavo Cruz

CEO Instituto Minere

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