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Supercomputador da UFMG usará inteligência artificial para mapear o Brasil: o que muda para a mineração?

Gustavo Cruz

Batizado de Soberano, equipamento amplia a capacidade de processamento de dados geográficos e abre novas possibilidades para a pesquisa mineral, o monitoramento ambiental e o planejamento de empreendimentos minerários.

Cefet-MG inaugura centro de supercomputação para pesquisas em inteligência artificial

Supercomputador Soberano, inaugurado na UFMG em 27 de outubro de 2026. Foto: Raphaella Dias/UFMG.

O Brasil está diante de um avanço tecnológico que poderá transformar a maneira como seu território é estudado, monitorado e utilizado. A Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) inaugurou, em 27 de outubro de 2026, o supercomputador Soberano, uma infraestrutura de alto desempenho desenvolvida para utilizar inteligência artificial (IA) na análise de grandes volumes de informações geográficas.

O equipamento integra o projeto GeoIDE, que pretende acelerar a produção de mapas detalhados do território brasileiro por meio do processamento de imagens de satélites, radares, drones e sensores especializados.

A iniciativa ganhou destaque nacional após reportagem do Jornal Nacional, da TV Globo, que apresentou as possibilidades da tecnologia para o conhecimento do território brasileiro.

Para o setor mineral, o avanço merece atenção especial. A combinação de inteligência artificial, sensoriamento remoto e processamento de dados em larga escala poderá contribuir para a identificação de áreas com potencial mineral, o planejamento de atividades de pesquisa e lavra e o acompanhamento dos impactos ambientais associados à mineração. Universidade Federal de Minas Gerais+1

Apenas 8% do território brasileiro possui mapeamento na escala 1:25.000

Um dos dados mais relevantes apresentados pela UFMG é que apenas cerca de 8% dos 8,5 milhões de quilômetros quadrados do território brasileiro estão mapeados na escala cartográfica 1:25.000.

Nessa escala, um centímetro no mapa representa 250 metros no terreno. Trata-se de um nível de detalhamento importante para o planejamento territorial, a gestão de bacias hidrográficas, a implantação de infraestrutura e a avaliação de riscos ambientais.

É importante diferenciar o mapeamento cartográfico do mapeamento geológico. O primeiro representa elementos e características do território, enquanto o segundo investiga a composição, a estrutura e a evolução geológica de determinada região.

Embora o dado de 8% não signifique que apenas essa parcela do Brasil tenha sido estudada geologicamente, ele evidencia uma lacuna na disponibilidade de bases cartográficas detalhadas, fundamentais para diversas atividades relacionadas à mineração. Universidade Federal de Minas Gerais+1

Para empresas de exploração mineral, consultorias e instituições de pesquisa, a ampliação dessas informações pode representar melhores condições para desenvolver estudos preliminares, integrar dados geoespaciais e planejar campanhas de investigação.

Como funciona o supercomputador Soberano?

O Soberano é uma infraestrutura de computação de alto desempenho projetada para executar operações complexas, incluindo algoritmos de inteligência artificial capazes de reconhecer padrões e extrair informações de grandes conjuntos de dados.

De acordo com a UFMG, o sistema possui oito aceleradores gráficos NVIDIA H200, com 141 GB de memória cada, dez nós de processamento com 256 núcleos por unidade, aproximadamente 400 terabytes de armazenamento paralelo e uma rede interna de 100 gigabits por segundo.

Essa capacidade permite processar e cruzar grandes quantidades de informações provenientes de diferentes tecnologias de aquisição de dados.

Da aquisição de dados à informação territorial

Satélites

Radares

Sensores e drones

Supercomputador Soberano

Processamento de alto desempenho e modelos de IA

Mapas e informações geográficas

Análises para tomada de decisão

Fluxo simplificado das possibilidades de processamento de geoinformações pelo projeto GeoIDE.

Na prática, o avanço não está apenas na velocidade de processamento, mas na possibilidade de automatizar tarefas que tradicionalmente exigem longos períodos de interpretação e classificação de imagens.

O objetivo é transformar dados geográficos em informações que possam apoiar decisões técnicas, científicas e estratégicas.

Pesquisa mineral: como a inteligência artificial poderá contribuir para novas descobertas?

Uma das aplicações potenciais mais relevantes para a mineração está na integração de informações geológicas, geofísicas, geoquímicas e geoespaciais.

A pesquisa mineral envolve diferentes etapas de investigação, desde o reconhecimento regional e a identificação de ambientes geológicos favoráveis até campanhas de campo, sondagens e avaliação de recursos minerais.

Nesse processo, a qualidade das informações disponíveis influencia diretamente as decisões sobre onde investigar, quais métodos utilizar e como distribuir os investimentos em exploração.

Com infraestrutura computacional de alto desempenho, torna-se possível desenvolver modelos que cruzem diferentes fontes de informação para identificar padrões espaciais, anomalias e áreas prioritárias para investigação.

Entre as aplicações potenciais estão:

  • Identificação de áreas prospectivas: integração de dados geológicos, geofísicos e de sensoriamento remoto para priorizar alvos de exploração mineral.


  • Reconhecimento de estruturas geológicas: análise de lineamentos, feições morfoestruturais e padrões espaciais que possam estar associados a ambientes mineralizados.


  • Processamento de dados geofísicos: apoio à interpretação integrada de levantamentos magnéticos, radiométricos e outros métodos, conforme os dados e modelos disponíveis.


  • Planejamento de campanhas de campo: utilização de informações sobre relevo, drenagem, acessibilidade e características ambientais para orientar investigações.


Essas aplicações representam possibilidades técnicas da combinação entre IA e geoinformação, não funcionalidades específicas já demonstradas pelo projeto GeoIDE para exploração mineral.

A tecnologia também não substitui a investigação geológica de campo, a amostragem, as análises laboratoriais ou a sondagem. Seu principal potencial está em complementar essas atividades, permitindo que os profissionais trabalhem com bases de dados mais amplas e análises integradas.

Sensoriamento hiperespectral: identificando características dos minerais além do visível

Além do supercomputador, a UFMG apresentou a câmera hiperespectral Hyper-Cam Mini xLW, instalada na Escola de Engenharia.

Diferentemente de uma câmera convencional, que registra informações em poucas bandas do espectro eletromagnético, os sensores hiperespectrais trabalham com um conjunto muito maior de faixas espectrais.

Isso permite identificar diferenças nas características de determinados materiais a partir de suas respostas espectrais.

No contexto da mineração, o sensoriamento hiperespectral é uma tecnologia relevante para estudos de mineralogia, identificação de alterações hidrotermais, caracterização de superfícies e monitoramento ambiental.

Minerais e materiais geológicos podem apresentar comportamentos espectrais distintos, dependendo de sua composição e das faixas de comprimento de onda observadas.

Por exemplo, determinados minerais de alteração, como argilominerais, podem apresentar feições espectrais úteis para investigações geológicas, desde que sejam utilizados sensores com cobertura espectral adequada.

No caso da câmera apresentada pela UFMG, que opera no infravermelho de ondas longas, as aplicações mineralógicas precisam considerar as características específicas do sensor, as condições de aquisição e os métodos de interpretação.

A integração dessas informações com modelos de inteligência artificial poderá ampliar as possibilidades de classificação e análise de materiais geológicos.

Gestão de recursos hídricos e segurança geotécnica também podem se beneficiar

As possibilidades da nova infraestrutura vão além da exploração mineral.

A mineração depende de informações confiáveis sobre relevo, drenagem, condições ambientais e comportamento do território para planejar suas operações e gerenciar riscos.

Mapas detalhados podem contribuir para estudos hidrológicos, delimitação de bacias hidrográficas, avaliação de áreas suscetíveis a inundações e planejamento de estruturas de drenagem.

Na geotecnia, a integração de dados topográficos e ambientais também pode apoiar estudos preliminares de estabilidade de encostas, localização de estruturas e identificação de áreas que demandam investigações complementares.

Essas informações são especialmente relevantes em um cenário de eventos climáticos extremos, no qual as empresas precisam aperfeiçoar seus procedimentos de monitoramento e gestão de riscos.

Entretanto, o mapeamento territorial não substitui levantamentos topográficos de precisão, investigações geológico-geotécnicas, instrumentação, ensaios ou análises de estabilidade exigidos para projetos e operações minerárias.

A contribuição está em fortalecer a base de conhecimento utilizada pelos profissionais e ampliar a capacidade de integração entre diferentes disciplinas.

Monitoramento ambiental e combate à mineração ilegal

Entre as aplicações explicitamente previstas pela UFMG estão o combate ao desmatamento e à mineração ilegal, o monitoramento ambiental e o apoio à resposta a inundações e deslizamentos.

A inteligência artificial pode contribuir para a identificação automatizada de mudanças na cobertura vegetal, alterações no uso do solo e transformações da paisagem ao longo do tempo.

Para o setor mineral, essas possibilidades dialogam com a crescente necessidade de monitoramento ambiental contínuo, rastreabilidade das operações e demonstração de conformidade com requisitos legais.

A integração de imagens de diferentes períodos pode auxiliar na identificação de alterações territoriais e no acompanhamento de áreas de interesse ambiental.

É importante destacar que a identificação de uma alteração na superfície não determina, por si só, a existência de uma irregularidade. A confirmação de mineração ilegal depende de informações adicionais, incluindo a situação dos títulos minerários, as autorizações e o licenciamento aplicável.

Soberania tecnológica: o valor estratégico dos dados sobre o território brasileiro

O nome Soberano representa uma dimensão importante do projeto: o fortalecimento da capacidade brasileira de produzir, processar e interpretar informações sobre seu próprio território.

A infraestrutura foi projetada, instalada e configurada por equipes brasileiras e integra uma iniciativa de pesquisa que envolve a UFMG, o Instituto Militar de Engenharia (IME) e a Diretoria de Serviço Geográfico do Exército.

A proposta é disponibilizar a infraestrutura para pesquisadores, programas de pós-graduação e instituições parceiras, ampliando as possibilidades de cooperação científica.

Para um país com expressiva atividade mineral e grande diversidade geológica, o domínio das tecnologias de geoinformação é estratégico.

O conhecimento sobre o território influencia decisões relacionadas à infraestrutura, à gestão ambiental, ao aproveitamento dos recursos naturais e ao desenvolvimento econômico.

A capacidade de processar esses dados em instituições nacionais representa, portanto, um avanço que ultrapassa os limites da pesquisa acadêmica.

O futuro da mineração será cada vez mais orientado por dados

A inauguração do Soberano reforça uma transformação já em andamento na indústria mineral: a crescente integração entre geociências, inteligência artificial, modelagem computacional e tecnologias de aquisição de dados.

Profissionais de geologia, engenharia de minas, geotecnia e meio ambiente precisarão desenvolver competências que permitam interpretar informações provenientes de diferentes fontes e compreender as possibilidades e limitações dessas tecnologias.

Ferramentas de modelagem geológica, sistemas de informações geográficas, softwares de processamento geofísico e plataformas de análise espacial tendem a ganhar ainda mais relevância nesse contexto.

A formação técnica continuará sendo indispensável. A inteligência artificial pode acelerar análises e identificar padrões, mas a interpretação geocientífica, a validação dos resultados e a responsabilidade pelas decisões permanecem fundamentais.

O avanço tecnológico não elimina a necessidade de especialistas. Ao contrário, amplia a importância de profissionais capazes de transformar dados em conhecimento e conhecimento em decisões tecnicamente fundamentadas.

O supercomputador Soberano representa uma nova oportunidade para ampliar o conhecimento sobre o território brasileiro. Para a mineração, seu maior potencial está em contribuir para uma atividade cada vez mais orientada por informações, integrada às geociências e comprometida com o uso responsável dos recursos naturais.

Fontes e referências

A matéria foi desenvolvida com base nas informações oficiais da UFMG e na cobertura jornalística da inauguração.

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Gustavo Cruz

CEO Instituto Minere

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