Levantamento publicado em 2026 reforça a dimensão do patrimônio mineral de Minas Gerais e evidencia o papel estratégico do minério de ferro para a economia brasileira e para a infraestrutura necessária à transição energética.
Mariana, em Minas Gerais, aparece entre os grandes destaques brasileiros em recursos de minério de ferro no novo Panorama do Potencial de Minerais Críticos e Estratégicos do Brasil – edição 2026, publicado pelo Serviço Geológico do Brasil (SGB).
O levantamento reúne informações sobre depósitos minerais, produção, reservas e potencial geológico brasileiro e ajuda a dimensionar a posição do país em cadeias minerais consideradas estratégicas para a economia, a indústria e as transformações tecnológicas em curso.
No caso do minério de ferro, o conjunto denominado Mariana, que reúne Fazendão, Alegria, Fábrica Nova e Capanema, todos associados à Vale, apresenta 9.066,2 milhões de toneladas de recursos estimados, ou aproximadamente 9,1 bilhões de toneladas, com teor médio indicado de 41,29% de ferro.
É um número expressivo, mas que precisa ser interpretado corretamente.
Recursos não são reservas
Quando um estudo aponta 9,1 bilhões de toneladas de recursos estimados, isso não significa que exista esse volume de ferro puro disponível para extração imediata.
O teor médio de 41,29% indica a proporção média de ferro presente no material mineralizado considerado pelo levantamento.
Além disso, existe uma diferença técnica fundamental entre recursos minerais e reservas minerais.
Recursos representam concentrações minerais identificadas e estimadas a partir de informações geológicas e estudos técnicos, com diferentes níveis de conhecimento e confiança. A transformação de parte desses recursos em reservas depende de estudos adicionais e da demonstração de condições técnicas, econômicas, ambientais, legais e operacionais que sustentem seu aproveitamento.
Portanto, os números revelam sobretudo a dimensão geológica dos depósitos, e não uma previsão automática do que será efetivamente lavrado.
Mariana dentro de uma das maiores províncias ferríferas do planeta
O resultado também precisa ser observado dentro de um contexto geológico maior.
Mariana está inserida no Quadrilátero Ferrífero, uma das principais províncias minerais do Brasil e uma região historicamente associada à produção de minério de ferro.
O levantamento do SGB mostra que os recursos brasileiros de ferro estão fortemente concentrados em duas províncias de classe mundial: o Quadrilátero Ferrífero, em Minas Gerais, e Carajás, no Pará.
O próprio estudo evidencia a escala dos grandes sistemas minerais brasileiros. Além dos 9,066 bilhões de toneladas atribuídos ao conjunto Mariana, são apresentados, entre outros, 8,900 bilhões de toneladas para Vargem Grande, 5,325 bilhões para Paraopeba e 4,414 bilhões para Serra Sul.
Mais do que uma fotografia de minas individuais, esses números ajudam a compreender a dimensão da base mineral que sustenta uma das principais cadeias econômicas brasileiras.
Brasil é o segundo maior produtor mundial de minério de ferro
Essa abundância geológica se traduz em relevância econômica.
Segundo os dados utilizados pelo SGB, o Brasil produziu 447,2 milhões de toneladas de minério de ferro em 2024, ocupando a segunda posição mundial, com cerca de 17,5% da produção global.
O minério de ferro respondeu por aproximadamente 56% da receita da mineração brasileira em 2024, movimentando US$ 28,8 bilhões.
Em 2025, o produto também representou 55,9% das exportações minerais brasileiras, com US$ 39,2 bilhões em vendas externas.
Poucos bens minerais possuem, portanto, impacto semelhante sobre a mineração, as exportações, a infraestrutura logística e a balança comercial brasileira.
Mas existe uma segunda dimensão que vem ganhando importância: o papel do ferro na transição para uma economia de baixo carbono.
Por que o minério de ferro é estratégico?
No Brasil, o minério de ferro já integra formalmente a relação de minerais considerados estratégicos.
A Resolução nº 2, de 18 de junho de 2021, do Ministério de Minas e Energia, incluiu o minério de ferro entre os bens minerais nos quais o Brasil possui vantagens comparativas e que são considerados essenciais para a economia por sua contribuição para o superávit da balança comercial.
Em 2026, o tema ganhou ainda mais relevância com a instituição da Política Nacional de Minerais Críticos e Estratégicos, voltada à pesquisa, lavra, beneficiamento, transformação mineral, inovação e maior agregação de valor no território brasileiro.
O minério de ferro possui uma característica particular nessa discussão.
Quando se fala em transição energética, minerais como lítio, níquel, cobre, grafita, cobalto e terras raras costumam receber maior atenção porque estão diretamente relacionados a baterias, redes elétricas, motores, equipamentos eletrônicos e outras tecnologias.
Mas nenhuma transição energética acontece apenas com esses minerais.
Ela precisa de infraestrutura.
E infraestrutura precisa de aço.
A transição energética também é feita de aço
Uma turbina eólica pode chamar atenção pelas pás gigantes e pelos sistemas tecnológicos utilizados na geração de energia. Mas torres, fundações, estruturas e diferentes componentes dependem de grandes quantidades de aço.
O mesmo acontece com linhas de transmissão, usinas hidrelétricas, instalações solares, veículos elétricos, ferrovias, sistemas de armazenamento, infraestrutura industrial e inúmeras obras necessárias à eletrificação da economia.
A Agência Internacional de Energia (IEA) destaca que o aço continuará sendo um material fundamental para a transição energética e está presente, em diferentes proporções, em tecnologias como painéis solares, turbinas eólicas, hidrelétricas e veículos elétricos.
Nesse sentido, existe uma diferença importante.
O minério de ferro não deve ser automaticamente tratado como “mineral crítico” apenas porque participa da transição energética. No contexto brasileiro, sua classificação consolidada é de mineral estratégico. Entretanto, o aço produzido a partir do ferro constitui um dos materiais estruturais essenciais para construir a infraestrutura da economia de baixo carbono.
Isso coloca o minério de ferro no centro de uma discussão que vai muito além do volume produzido.
O desafio agora é produzir um aço de menor carbono
Existe ainda um paradoxo importante.
Se o aço é necessário para construir a infraestrutura da transição energética, sua própria produção precisa passar por uma transformação.
A siderurgia está entre as atividades industriais mais intensivas em energia e emissões de CO₂ no mundo. Segundo a IEA, o setor de ferro e aço responde diretamente por cerca de 7% das emissões globais relacionadas ao sistema energético.
Por isso, uma das grandes fronteiras tecnológicas das próximas décadas será justamente a produção do chamado aço de baixo carbono ou aço verde.
Rotas utilizando eletricidade renovável, maior aproveitamento de sucata, fornos elétricos, redução direta e hidrogênio de baixo carbono estão entre as alternativas estudadas e implementadas internacionalmente.
E isso também produz consequências para a mineração.
Algumas dessas tecnologias demandam matérias-primas com características específicas e podem aumentar a importância do beneficiamento, da concentração mineral e da produção de minério de ferro de maior qualidade.
Assim, a discussão sobre o futuro do minério de ferro brasileiro não envolve somente quanto minério existe, mas também qual minério será necessário para a siderurgia do futuro.
De potência mineral a potência industrial
Os mais de 9 bilhões de toneladas de recursos estimados associados ao conjunto Mariana ajudam a revelar novamente a dimensão do patrimônio mineral brasileiro.
Mas possuir recursos no subsolo é apenas uma parte da equação.
O desafio estratégico para o Brasil passa pelo conhecimento geológico, pesquisa mineral, tecnologia, eficiência operacional, segurança, gestão ambiental, reaproveitamento de rejeitos, redução das emissões e, principalmente, pela capacidade de gerar mais valor a partir dos recursos minerais existentes.
A transição energética está criando uma nova corrida global por minerais. E, embora lítio, cobre, níquel, grafita e terras raras ocupem boa parte das manchetes, existe um material conhecido há séculos que continuará sustentando fisicamente boa parte dessa transformação.
O ferro talvez não seja o protagonista mais novo da transição energética. Mas o aço continuará sendo uma de suas principais estruturas.
E, nesse cenário, os números apresentados pelo Serviço Geológico do Brasil mostram que Minas Gerais e o Brasil possuem uma base mineral de dimensão mundial para participar dessa transformação.