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ANM alerta mineradoras para chuvas extremas: segurança de barragens entra em período de atenção reforçada

Gustavo Cruz

Com a intensificação do El Niño e a proximidade do período de chuvas, Agência Nacional de Mineração recomenda revisão de drenagens, reforço do monitoramento geotécnico, inspeções mais frequentes e preparação dos sistemas de emergência. Para empresas e comunidades próximas às estruturas, prevenção volta ao centro da agenda.

A aproximação do período chuvoso acende novamente um sinal de atenção para a mineração brasileira.

Em alerta publicado oficialmente em 10 de setembro de 2026, a Agência Nacional de Mineração (ANM) orientou os empreendedores a reforçarem as medidas de segurança nas estruturas de disposição de rejeitos, incluindo as barragens de mineração, diante da possibilidade de eventos de chuva intensa e concentrada associados ao El Niño.

A recomendação não deve ser interpretada apenas como uma providência administrativa. O período chuvoso modifica as condições de carregamento e operação de estruturas geotécnicas e exige atenção especial à gestão das águas, drenagem, instrumentação, inspeções de campo, estabilidade de taludes e capacidade de resposta diante de anomalias.

E o cenário climático projetado para os próximos meses amplia a relevância do alerta.

O terceiro boletim do Painel El Niño 2026–2027, elaborado conjuntamente por órgãos como INMET, INPE, ANA, Cemaden, Serviço Geológico do Brasil e Defesa Civil Nacional, informou no início de setembro que as projeções apontavam mais de 90% de probabilidade de ocorrência de um El Niño muito forte no trimestre setembro-outubro-novembro de 2026.

Para a segurança de barragens, portanto, a palavra central é prevenção.

O que motivou o alerta da ANM

O comunicado foi publicado no portal oficial da Agência Nacional de Mineração em 10 de setembro, com o título “Empreendedores devem reforçar medidas preventivas contra possíveis chuvas extremas associadas ao El Niño”.

Segundo a ANM, alterações nos padrões de precipitação podem aumentar a probabilidade de chuvas intensas e concentradas em determinadas regiões. A Região Sul recebeu destaque no comunicado, mas a orientação da Agência é para acompanhamento permanente das condições meteorológicas e das estruturas de mineração em todo o país.

Não se trata, aliás, de uma preocupação isolada. Em janeiro e fevereiro de 2026, diante de situações meteorológicas específicas, a Agência já havia emitido orientações para reforço das medidas preventivas, incluindo verificação de drenagem, extravasores, bombeamento emergencial, monitoramento e inspeções.

O novo alerta, entretanto, apresenta uma abordagem mais abrangente diante do cenário associado ao El Niño.

Seis pontos que precisam estar no radar das empresas

A ANM concentrou suas recomendações em seis frentes que, na prática, atravessam diferentes áreas da gestão de segurança de estruturas geotécnicas.

1. Drenagem, extravasores e bombeamento

A primeira recomendação é verificar as condições de operação e manutenção dos sistemas de drenagem superficial, estruturas extravasoras e sistemas de bombeamento.

Esses elementos são fundamentais durante eventos hidrometeorológicos críticos. Sistemas obstruídos, subdimensionados para determinadas condições operacionais ou com problemas de manutenção podem comprometer a capacidade de condução e controle das águas.

2. Monitoramento e instrumentação

A Agência orienta o reforço das rotinas de monitoramento e da avaliação dos dados provenientes da instrumentação.

Mais do que coletar informações, é necessário interpretá-las.

Piezômetros, medidores de nível d’água, inclinômetros, marcos superficiais e demais instrumentos precisam integrar um sistema capaz de identificar tendências, alterações de comportamento e anomalias em tempo adequado para a tomada de decisão.

3. Inspeções durante e depois das chuvas

Outro ponto destacado é a intensificação das inspeções de rotina, especialmente durante e após eventos de precipitação intensa.

A ANM determina ainda que as condições observadas e as providências adotadas sejam formalmente registradas.

Esse aspecto é particularmente importante porque determinadas manifestações podem surgir ou se intensificar após episódios de chuva e precisam ser avaliadas tecnicamente antes que evoluam.

4. Taludes, acessos e ombreiras também precisam ser observados

O alerta não se limita ao corpo principal de uma barragem.

A orientação inclui avaliação de taludes, acessos, ombreiras e outros componentes, procurando identificar sinais como erosões, infiltrações, trincas e movimentações de massa.

Quando identificadas alterações, a recomendação da ANM é a execução imediata das medidas corretivas necessárias.

Essa visão sistêmica é fundamental: segurança geotécnica não pode ser reduzida à observação de um único componente da estrutura.

PAEBM: emergência não pode começar a ser preparada durante a emergência

Outro aspecto importante do alerta está relacionado à preparação para situações críticas.

A ANM determina que os recursos necessários para resposta a emergências estejam disponíveis e que permaneçam plenamente operacionais os sistemas de comunicação e alerta destinados às áreas potencialmente afetadas. Também recomenda interlocução permanente com os órgãos de proteção e Defesa Civil.

É nesse contexto que ganha ainda mais importância o Plano de Ação de Emergência para Barragens de Mineração — PAEBM.

Um plano de emergência efetivo não pode existir apenas documentalmente.

Rotas, sistemas de alerta, responsabilidades, fluxos de comunicação, recursos, procedimentos e articulação institucional precisam estar definidos, conhecidos, testados e operacionais.

Para as comunidades situadas em áreas potencialmente afetadas, essa preparação também é fundamental. Informação clara sobre sistemas de alerta, procedimentos de emergência e rotas previstas é parte essencial da capacidade de resposta.

Os números da estabilidade das barragens brasileiras

O alerta climático acontece em um momento no qual os próprios dados regulatórios mostram a importância de manter atenção permanente sobre as estruturas.

Na campanha de Declaração de Condição de Estabilidade (DCE) do primeiro semestre de 2026, a ANM registrou 463 declarações.

Do conjunto participante, 421 estruturas tiveram sua estabilidade atestada.

Outras 18 barragens não tiveram a estabilidade atestada, enquanto 24 não enviaram a documentação dentro do prazo estabelecido. Segundo a própria Agência, a ausência de envio implica presunção de não atestação da estabilidade.

É importante compreender corretamente esses números.

Uma DCE não atestada não significa, automaticamente, que ocorrerá o rompimento de uma estrutura. Da mesma maneira, possuir uma declaração atestada não elimina a necessidade de monitoramento, inspeção, manutenção e gestão contínua.

A DCE é baseada em relatório técnico que avalia aspectos da segurança geotécnica e hidrológico-hidráulica da barragem, incluindo fatores mínimos de segurança e capacidade dos dispositivos de vertimento. Ela expressa a avaliação do responsável técnico e a ciência da alta hierarquia da empresa sobre as condições de segurança observadas no período.

Segurança de barragens, portanto, é um processo contínuo, e não uma condição permanente conferida por um documento.

Minas Gerais permanece no centro dessa discussão

Em Minas Gerais, o tema possui dimensão técnica, econômica e social particularmente relevante.

O estado concentra intensa atividade mineral e um conjunto significativo de estruturas de mineração. Além disso, continua em andamento o processo de descaracterização de barragens construídas pelo método a montante.

O Ministério Público de Minas Gerais mantém uma plataforma específica para acompanhamento das estruturas a montante em processo de descaracterização, com informações produzidas por empreendedores, auditorias externas e órgãos públicos. A plataforma teve atualização em setembro de 2026.

Por isso, períodos de precipitação intensa exigem atenção integrada de empreendedores, responsáveis técnicos, consultorias, órgãos fiscalizadores, Defesa Civil e comunidades.

Chuva não é sinônimo de rompimento — mas muda as condições que precisam ser gerenciadas

É importante evitar uma associação simplista entre chuva intensa e rompimento de barragem.

Estruturas de mineração são projetadas considerando condições hidrológicas e hidráulicas específicas e possuem sistemas destinados à gestão das águas.

O problema técnico está em compreender como cada estrutura responde às condições reais às quais está submetida.

Precipitações podem alterar níveis d’água, vazões, pressões intersticiais, condições de drenagem, processos erosivos, infiltrações e condições de taludes e acessos.

Por isso, eventos extremos exigem que projeto, operação, manutenção, inspeção e monitoramento funcionem de maneira integrada.

Não basta possuir instrumentos instalados. É preciso interpretar os dados.

Não basta possuir drenagem. É preciso garantir que ela esteja operacional.

Não basta possuir um PAEBM. É necessário que os procedimentos funcionem quando forem necessários.

E não basta realizar inspeções. É fundamental reconhecer anomalias, avaliar sua evolução e estabelecer respostas tecnicamente adequadas.

É justamente aí que entra um dos elementos menos visíveis — e mais importantes — da segurança de barragens: a qualificação das pessoas responsáveis pelas decisões.

O alerta também evidencia outro desafio: profissionais preparados

Existe ainda uma dimensão importante no alerta da ANM que vai além das estruturas, equipamentos e procedimentos: a qualificação das pessoas responsáveis por interpretar informações e tomar decisões.

Drenagem, instrumentação, inspeção, estabilidade, identificação de anomalias, operação, manutenção e gestão de emergências exigem conhecimento técnico especializado.

Um instrumento pode registrar uma alteração. Mas é o profissional que precisa compreender o que aquele dado representa.

Uma inspeção pode identificar uma trinca, erosão, surgência ou movimentação. Mas é necessário conhecimento para avaliar sua relevância, investigar suas causas e definir quais providências devem ser adotadas.

Da mesma forma, um sistema de drenagem pode estar implantado e uma estrutura pode possuir procedimentos formalmente estabelecidos. Ainda assim, sua segurança depende da qualidade da operação, do monitoramento e das decisões tomadas ao longo de sua vida útil.

É por isso que segurança de barragens é uma área essencialmente multidisciplinar.

Ela envolve conhecimentos de mecânica dos solos e das rochas, geologia de engenharia, hidrologia e hidráulica, estabilidade de taludes, instrumentação, monitoramento, inspeção, gestão de riscos, legislação, governança e resposta a emergências.

E o aumento das exigências técnicas e regulatórias tem ampliado também a necessidade de profissionais especializados.

Geotecnia e segurança de barragens: uma área de alta responsabilidade profissional

O desenvolvimento do arcabouço regulatório brasileiro após os grandes acidentes envolvendo barragens de mineração transformou profundamente a atuação das empresas e dos profissionais responsáveis por essas estruturas.

Hoje, engenheiros, geólogos, técnicos, consultores, gestores e profissionais de órgãos fiscalizadores atuam em um ambiente no qual decisões técnicas possuem consequências operacionais, ambientais, sociais e jurídicas relevantes.

O próprio alerta emitido pela ANM para o período chuvoso ajuda a dimensionar essa responsabilidade.

Não se trata apenas de “acompanhar uma barragem”.

É necessário compreender seu comportamento, interpretar dados, reconhecer anomalias, avaliar riscos e saber quando uma determinada condição exige investigação, intervenção ou acionamento de procedimentos previamente estabelecidos.

Esse cenário mantém elevada a demanda do setor mineral por profissionais capazes de atuar em projeto, construção, operação, monitoramento, inspeção, gestão e descaracterização de barragens e pilhas.

Para quem atua ou pretende atuar nessa área, especialização técnica representa também uma importante oportunidade de desenvolvimento profissional.

Instituto Minere abre inscrições para a 20ª turma da Pós em Geotecnia e Segurança de Barragens e Pilhas

É justamente para preparar profissionais para esse ambiente de alta responsabilidade técnica que o Instituto Minere mantém a Pós-Graduação em Geotecnia e Segurança de Barragens e Pilhas, que chega agora à sua 20ª turma.

A formação foi estruturada em três grandes eixos:

Fundamentos da Engenharia Geotécnica; Critérios de Projetos e Estruturas de Contenção; e Monitoramento, Operação e Inspeção Geotécnica.

Ao longo da especialização, o aluno desenvolve conhecimentos relacionados aos fundamentos da mecânica dos solos e das rochas, projetos e metodologias construtivas de barragens e pilhas, estabilidade de taludes, investigação geotécnica, instrumentação e monitoramento, aspectos normativos, descaracterização de estruturas, governança e compliance.

A proposta é formar profissionais capazes não apenas de conhecer normas e procedimentos, mas de desenvolver capacidade crítica para analisar projetos, métodos construtivos, procedimentos operacionais, manutenção, inspeção e monitoramento geotécnico.

A pós é direcionada tanto ao corpo técnico — engenheiros, geólogos, geotécnicos, profissionais de mineração, técnicos e consultores — quanto a gestores responsáveis por estruturas e profissionais de órgãos fiscalizadores, Defesa Civil e instituições relacionadas ao controle e segurança dessas estruturas.

Em um setor no qual prevenir depende de reconhecer sinais, interpretar informações e tomar decisões tecnicamente fundamentadas, formação profissional também é uma ferramenta de segurança.

20ª turma com inscrições abertas

A nova turma da Pós-Graduação em Geotecnia e Segurança de Barragens e Pilhas do Instituto Minere está com inscrições abertas.

Para profissionais que desejam ingressar na área ou aprofundar sua atuação em geotecnia, barragens e pilhas, este é um momento especialmente relevante: o setor continua demandando especialistas enquanto as exigências técnicas, regulatórias e de governança sobre essas estruturas avançam.

Conheça a Pós-Graduação em Geotecnia e Segurança de Barragens e Pilhas e faça sua pré-inscrição:

Esta é a primeira matéria de uma série especial do Instituto Minere sobre segurança de barragens no período chuvoso.

Nas próximas publicações, vamos aprofundar os principais pontos levantados pelo alerta da ANM e discutir, com especialistas, temas como gestão das águas e drenagem, inspeções durante e após chuvas intensas, instrumentação e interpretação de dados, identificação de anomalias, estabilidade geotécnica, PAEBM e preparação para emergências.

Porque o período chuvoso passa todos os anos. A preparação das estruturas e das equipes precisa acontecer antes da chuva.

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Gustavo Cruz

CEO Instituto Minere

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