Os terremotos registrados recentemente em diferentes pontos da América do Sul voltaram a chamar atenção e, como costuma acontecer após eventos sísmicos relevantes, também abriram espaço para interpretações alarmistas nas redes sociais. Mapas com linhas delimitando placas tectônicas e marcações de terremotos podem transmitir a impressão de que o continente está passando por uma atividade extraordinária ou de que esses eventos seriam sinais de algo maior prestes a acontecer.
Mas é importante separar percepção de evidência científica.
A primeira informação fundamental é que a Terra é um planeta geologicamente ativo. Sua camada externa rígida, a litosfera, está dividida em placas tectônicas que se movimentam continuamente. As linhas que aparecem nos mapas representam justamente os limites entre essas placas, regiões onde se concentra grande parte da atividade sísmica e vulcânica do planeta.
Na América do Sul, isso é especialmente evidente na margem oeste do continente. Ali ocorre a convergência entre a Placa de Nazca e a Placa Sul-Americana. A placa oceânica de Nazca avança em direção ao continente e mergulha sob a placa continental em um processo chamado subducção.
Esse movimento ocorre há milhões de anos e está diretamente relacionado à formação e evolução da Cordilheira dos Andes, ao vulcanismo andino e à intensa atividade sísmica observada em países como Chile, Peru, Equador e Colômbia.
Portanto, terremotos nessa extensa faixa do continente não representam, por si só, uma anomalia. Eles são manifestações esperadas de um dos ambientes tectônicos mais ativos do planeta.
Terremotos próximos no tempo estão necessariamente relacionados?
Não.
Esse é um dos principais cuidados necessários ao interpretar os eventos recentes.
Quando vários terremotos aparecem em um mapa durante um intervalo relativamente curto, é natural estabelecer visualmente uma conexão entre eles. Entretanto, proximidade temporal não significa automaticamente relação causal.
Para determinar cientificamente se dois terremotos estão relacionados, geólogos e geofísicos analisam fatores como localização, profundidade, mecanismo de ruptura, geometria das falhas, distribuição das tensões e distância entre os eventos.
Grandes terremotos realmente podem produzir réplicas e alterar o campo de tensões nas regiões próximas à ruptura. Isso é amplamente conhecido e estudado pela sismologia. Mas é muito diferente de afirmar que um terremoto ocorrido em determinado ponto da América do Sul necessariamente provocará outro a centenas ou milhares de quilômetros de distância.
A tectônica não funciona como uma simples sequência de peças de dominó.
“As placas estão se movimentando”?
Sim, e sempre estiveram.
Talvez essa seja uma das expressões que mais geram interpretações equivocadas nas redes sociais. Dizer que terremotos estão acontecendo porque “as placas começaram a se movimentar” sugere uma mudança recente no comportamento do planeta.
Não é isso que ocorre.
As placas tectônicas estão em movimento contínuo, normalmente alguns centímetros por ano. Na margem oeste sul-americana, a convergência entre Nazca e América do Sul acumula tensões nas rochas. Quando essas tensões superam a resistência das estruturas geológicas, ocorre uma ruptura ou deslocamento e parte da energia acumulada é liberada na forma de ondas sísmicas.
É isso que sentimos como terremoto.
A ocorrência desses eventos é, portanto, parte da própria dinâmica geológica do continente.
Risco real não significa previsão de catástrofe
Isso não significa minimizar o risco sísmico da América do Sul. Pelo contrário.
Zonas de subducção estão entre os ambientes capazes de produzir os maiores terremotos conhecidos. O Chile, por exemplo, registrou em 1960 o terremoto de Valdivia, de magnitude 9,5, o maior já registrado instrumentalmente no planeta.
Por isso, monitoramento, engenharia adequada, planejamento territorial, sistemas de alerta e preparação da população são fundamentais.
O que a ciência não permite afirmar é que uma sequência de terremotos recentes, isoladamente, seja evidência de que um grande terremoto está prestes a acontecer.
Até hoje não existe método cientificamente validado capaz de prever com precisão a data, o local e a magnitude de um terremoto futuro. A ciência consegue mapear áreas de maior ameaça sísmica, monitorar falhas e deformações, estudar probabilidades e construir cenários de risco. Isso é muito diferente de anunciar uma catástrofe iminente.
Quando olhamos um mapa global de terremotos e percebemos que muitos deles acompanham os limites das placas tectônicas, não estamos necessariamente vendo um planeta que se tornou subitamente mais instável.
Estamos vendo a dinâmica normal de um planeta ativo.
No caso da América do Sul, compreender a interação entre as placas de Nazca e Sul-Americana ajuda a colocar os acontecimentos recentes em sua dimensão correta: existe um contexto tectônico real, existem riscos que precisam ser conhecidos e monitorados, mas isso não justifica transformar cada sequência de terremotos em previsão de catástrofe.
A resposta ao risco geológico não é o sensacionalismo. É conhecimento geocientífico, monitoramento e prevenção.
