Ultimamente tornou-se comum ouvir de pensadores, consultores, CEOs e conselheiros de administração que o ESG é passado. Para muitos, teria sido uma grande onda: ganhou escala global, impactou discursos, relatórios, eventos e decisões corporativas, mas arrefeceu. O termo perdeu centralidade, saiu do foco das atenções e deixou de ocupar o protagonismo que teve nos anos recentes.
Essa leitura não surge do nada. De fato, o ESG deixou de ser o assunto dominante nas agendas corporativas. O excesso de discursos genéricos, promessas pouco conectadas à realidade operacional e iniciativas sem impacto mensurável desgastou o conceito. O que não gerava efeito concreto sobre risco, valor ou continuidade do negócio perdeu espaço rapidamente.
Isso, porém, não significa que o ESG tenha desaparecido. Significa que mudou de forma.
Para setores intensivos em capital, território e licenças — como mineração e construção — o ESG deixou de ser uma pauta aspiracional e passou a se manifestar de maneira mais dura, técnica e silenciosa. Saiu do palco dos grandes slogans e entrou definitivamente no campo das exigências regulatórias, da governança, da responsabilidade dos administradores e da proteção do patrimônio empresarial.
Essa mudança é especialmente relevante para pequenas e médias empresas desses setores no Brasil. Muitas operam com ativos relevantes, licenças sensíveis e relação constante com o poder público, mas até pouco tempo atrás sequer reconheciam o ESG como algo aplicável ao seu negócio. Paradoxalmente, é exatamente nesse segmento que o ESG começa agora a chegar — não como discurso moral, mas como instrumento de sobrevivência empresarial.
É o fim do ESG romântico e a consolidação do ESG material. O grande equívoco do primeiro ciclo do ESG foi tratá-lo como uma agenda ampla e homogênea, em que todas as pautas teriam o mesmo peso estratégico. Na prática, o mercado nunca funcionou assim. O mercado opera com materialidade.
Material é aquilo que afeta risco, resultado, continuidade do negócio, acesso a capital, relação com o poder público, responsabilidade dos sócios e reputação local. Quando o ESG passou a abarcar temas desconectados da operação real de muitas empresas, perdeu tração como narrativa central. Investidores, conselhos e gestores migraram rapidamente para aquilo que continuava fazendo diferença objetiva.
O resultado foi previsível: o ESG genérico perdeu protagonismo, mas seus efeitos mais duros e relevantes se consolidaram.
Ambiental deixou de ser discurso abstrato sobre sustentabilidade e passou a significar licença ambiental, condicionantes, passivos, supressão vegetal, água, rejeitos, áreas degradadas, emissões e rastreabilidade.
Social deixou de ser slogan e passou a significar risco de conflito com comunidades, informalidade trabalhista, terceirização irregular, acidentes, paralisações, atuação do Ministério Público e danos reputacionais com impacto direto na operação.
Governança deixou de ser conceito distante e passou a significar responsabilidade pessoal de sócios e administradores, controles mínimos, processos decisórios documentados, compliance regulatório e prova de diligência.
Em outras palavras: o ESG que sobreviveu é aquele que gera consequência jurídica, regulatória, financeira e patrimonial.
Por que o ESG está chegando agora às pequenas e médias empresas de mineração e construção?
Durante anos, pequenas e médias empresas desses setores operaram em um ambiente de tolerância informal. Estruturas enxutas, decisões concentradas, pouca documentação, baixa exigência externa e uma relação predominantemente reativa com órgãos reguladores.
Esse ambiente mudou. Não por modismo, mas por pressão estrutural. A intensificação da fiscalização ambiental, a atuação mais técnica do Ministério Público, comunidades do entorno mais conscientes e proativas, a exigência crescente de financiadores, seguradoras e compradores de maior porte elevaram o patamar mínimo de organização exigida.
A criação do Fórum Permanente de ESG pela ANM em agosto de 2025 não deve ser lida como gesto simbólico. É sinal claro de que temas antes tratados como periféricos tendem a se converter em critérios técnicos de decisão administrativa, com reflexos diretos em licenças, autorizações, financiamentos e operações societárias.
Nesse contexto, o ESG não chega como peso adicional. Chega como atalho. Um atalho para organizar o que já existe, reduzir improviso, antecipar risco e construir uma posição defensável diante de fiscalizações, auditorias e negociações relevantes.
O maior erro de abordagem nesse segmento é entender ESG como causa, valor ou compromisso ético abstrato. Pequenos e médios empresários de mineração e construção não investem em virtude. Investem em proteção, previsibilidade e continuidade.
O entendimento é simples: se a empresa opera com ativo fixo, território, licença ambiental, relação com o poder público, trabalhadores e comunidades, ela já está dentro do ESG. A única diferença é se está no controle ou sendo controlada.
O ESG contemporâneo não é sobre “fazer o bem”. É sobre reduzir risco, evitar paralisações, proteger o patrimônio dos sócios e garantir previsibilidade operacional.
A primeira coisa a se fazer é um diagnóstico de risco material. Identificar, de forma objetiva, onde a empresa pode parar, ser multada, embargada ou perder mercado nos próximos 12 a 24 meses. Priorizar o que afeta o caixa agora, o que pode ser mitigado com baixo custo e o que pode ser adiado sem risco relevante.
A segunda coisa é criar uma governança defensiva proporcional ao porte da empresa. Não se trata de copiar modelos de companhias listadas ou criar estruturas artificiais, mas de construir o mínimo necessário para provar diligência: rotinas claras, responsabilidades definidas, políticas simples e documentação essencial.
A terceira é a construção de uma narrativa técnica defensável. Em um ambiente regulatório mais hostil, a empresa precisa saber explicar o que faz, por que faz e como controla seus riscos — para o fiscal, para o banco, para o investidor, para o comprador estratégico e para o Ministério Público.
O valor do ESG material está na redução de surpresa. Menos susto, menos improviso, menos decisão tomada sob pressão. Diagnósticos objetivos, ajustes documentais, estruturação mínima de compliance, preparação para financiamentos, venda de ativos, renovação de licenças e acompanhamento técnico enxuto geram valor real no curto prazo.
O discurso honesto é direto: o ESG não vai, por si só, fazer a empresa ganhar dinheiro amanhã. Mas a ausência dele pode fazer a empresa perder muito rápido.
Conclusão prática: o ESG não acabou, mas deixou de ser discurso e virou infraestrutura jurídica e decisória. Não é bandeira moral, é mecanismo de defesa e organização. As empresas que entenderem isso antes não estarão na vanguarda do discurso, mas na dianteira estratégica.
