QAQC: Transparência em Auditorias de Recursos e Reservas

por Marcela Tainã em 21/Jul/2020
QAQC: Transparência em Auditorias de Recursos e Reservas

No texto anterior discutimos sobre o QAQC e os laboratórios de mineração. (Para ler a matéria anterior > clique aqui <)

Dando continuidade aos textos sobre o QAQC, vamos falar sobre auditorias e fraudes?

O QAQC não é só uma ferramenta de garantia e controle de qualidade, é uma boa prática que diz aos investidores que seu projeto é transparente e seus dados são confiáveis. É fundamental e prova que seu projeto não é uma fraude.

Mas, o que é uma fraude?

É qualquer ato ardiloso, enganoso, de má-fé, com o intuito de lesar ou ludibriar outrem, ou de não cumprir determinado dever.

Talvez você esteja achando que agora fui longe demais e que isso é algo muito longe da realidade. Infelizmente, isso está mais próximo a você do que pode imaginar. Talvez não fraudes tão impactantes como a do exemplo que vamos usar, mas pequenas fraudes que valorizam o negócio.

Para exemplificar o assunto vou relembrá-los de um caso recente, que ficou conhecido como a maior farsa empresarial do século. Estou me referindo ao famoso caso Bre-X.

O caso foi um golpe para supervalorizar as ações da Bre-X Minerals Ltd na Bolsa de Valores de Toronto, no Canadá. A farsa foi descoberta por uma companhia de auditoria independente.

Em outubro de 1995, a pequena mineradora canadense anuncia que as prospecções iniciais em Busang (sudeste da Indonésia) revelaram a maior mina de ouro do mundo. Ela conteria cerca de 850 toneladas do valioso mineral. A empresa canadense se associa a uma parceira norte-americana, a Freeport MacMoRan Cooper & Gold Inc.

Em maio de 1996, o preço das ações da Bre-X superou os US$ 200. Empresa passou a ter valor de mercado líquido de 6 bilhões de dólares.

Em junho de 1996, Bre-X apresenta projeto de Busang contendo 39 milhões de onças de ouro. Um mês depois foram estimadas 47 milhões de onças. Em Fevereiro de 1997, após a disputa de 10 meses com o governo indonésio, Bre-X e Freeport- McMoRan chegam a um acordo para desenvolver Busang. Bre-X recebe 45% do negócio, Freeport fica com 15%, o governo indonésio em acordo com interesses privados Indonésios obter os outros 40%.

Em fevereiro de 1997, Bre-X anunciou nova estimativa em Busang de 71 milhões onça.

Em Março de 1997, a Freeport-McMoRan diz em due diligence (utilizando furos gêmeos) que existem apenas pequenas quantidades de ouro em Busang. Freeport exige reunião com De Guzman (geólogo chefe do projeto) no final do mês para discutir os resultados de sondagem. As avaliações da empresa Freeport sugerem que as previsões da Bre-X foram superestimadas. Cinco dias mais tarde, a Bre-X admite que pode ter errado e contrata a firma de consultoria independente Strathcona Mineral Services Ltda.

As suspeitas da fraude se confirmam com o desaparecimento de De Guzman. Segundo consta, helicóptero do geólogo caiu sobre a selva na Indonésia. O mistério sobre a causa da morte: suicídio, assassinato, ou até mesmo ter forjado a própria morte ainda permanecem.

As ações da Bre-X caem de US$ 11 para US$ 1,80.

A Strathcona divulgou seu relatório. Segundo a auditoria, a descoberta do século foi uma farsa 'sem precedentes na história'. As conclusões iniciais foram baseadas em 'dados adulterados'.

Como resultado:

• Queda das bolsas mundiais nas quais se negociavam as ações de companhias mineiras e de exploração (principalmente Junior Companies);

• Redução drástica da exploração mineral no mundo devido à grande desconfiança;

• Revisão e adequação dos Códigos de Mineração no mundo todo;

• Preparação de novos regulamentos e recomendações de boas práticas mais rigorosas.

Para finalizar, você já assistiu ao filme GOLD? A obra é uma releitura inspirada neste caso que mudou os rumos da mineração mundial e traz um roteiro repleto de movimentado, bem dirigido e interpretado, e munido de uma boa dose de humor e reviravoltas. Além de ser um interessante retrato dos limites, exageros e maquinações do mundo da especulação, que pode levar homens à fortunas e riquezas, e em seguida à ruína completa, em questão de horas.

Uma ótima oportunidade de lazer e ainda refletir sobre esse caso que podemos até dizer que além de emblemático, mudou a história da mineração. #ficaadica

Marcela Tainã

Membro do Australian Institute of Geoscientists AIG. Bacharel em Geologia (USP), é especialista em Amostragem, QA/QC e Avaliação de Recursos. Participou como CP/ QP e implementação de programas de QA/QC (Quality Assurance and Quality Control) em projetos de grandes players nacionais. Vasta experiência também em modelamento geológico e Geometalurgia.

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