O envelhecimento da barragem influencia na decisão pela descaracterização?

por Márcio Leão em 13/Apr/2022
O envelhecimento da barragem influencia na decisão pela descaracterização?

A segurança de barragens é uma das maiores preocupações que a sociedade enfrenta hoje. A necessidade de construção de mais barragens aumenta em função da infraestrutura e recursos necessários buscando o acompanhamento do crescimento populacional associado à expansão das indústrias. Consequentemente, os perigos apresentados por barragens, principalmente as mais antigas, são agravados pela intensificação da ocupação e crescimento da indústria em áreas a jusante dessas estruturas,

Os sinais de instabilidade das barragens aumentam as preocupações de seu possível rompimento, causando: perda de vidas, destruição de infraestruturas e danos ambientais. A ausência de estudos robustos em fases anteriores à construção, bem como acompanhamento construtivo de qualidade fazem com que a incerteza reja a percepção sobre a estabilidade geotécnica a longo prazo. A decisão nesses projetos deve ser tomada em: se continuar gastando com reparos, reabilitação e modernização, considerando custos crescentes ao longo do tempo, ou se seria mais fácil descaracterizá-la e talvez removê-la completamente.

À medida que as barragens envelhecem e continuam com seus objetivos/funções, a integridade estrutural pode ser prejudicada. Considerando ainda, que o dimensionamento de suas estruturas auxiliares, como vertedouros, por exemplo, possa ter considerado eventos extremos desatualizados (dada a idade da estrtura), ou mesmo tempos de retorno mais curtos, pode haver um risco não tão devidamente identificado. No entanto, não está claro até que ponto deverá uma reavaliação generalizada das classificações de inundações e terremotos em barragens de alto risco. Tal avaliação, poderia levantar questões de suma importância a serem consideradas em resoluções e normativas construtivas. Por exemplo:

  • Que critérios devem ser usados para determinar se os riscos atuais são aceitáveis?
  • Se os riscos não forem aceitáveis, a barragem deve ser melhorada através da introdução de alterações em seu projeto ou podem ser realizadas alterações a jusante? A opção de remover a barragem poderia ser a melhor alternativa
  • Quem deve arcar com o custo e qual o nível de responsabilidade sobre a estrutura?

Independentemente das barragens terem sido construídas para resistir a um terremoto ou inundação de magnitude “apropriada”, elas podem ter deficiências relacionadas à idade que precisam ser corrigidas para manter os níveis atuais de segurança contra tais eventos. Portanto, é necessário que as ações de inspeções de segurança e atividades de reabilitação sejam contínuas e possam ser ampliadas. Em resumo, quando se trata de integridade de barragens, o envelhecimento é um assunto muito importante e que cabe uma reflexão no projeto. Em muitas barragens antigas, ao redor do mundo, componentes estruturais, tais como: cursos d'água, filtros, drenagens e equipamentos hidromecânicos sofrem degradação. O processo é acelerado pela deposição de sais, oxidação e corrosão por escoamento químico ou abrasão e, potencial cavitação desses cursos d'água, por exemplo. Além disso, barragens muito antigas podem ter sido projetadas e construídas por práticas de engenharia desatualizadas, além de dados de eventos sísmicos e hidrológicos que as tornam mais vulneráveis a falhas.

Para muitas barragens antigas, os benefícios ao público em removê-las podem superar os custos de operação contínua. À luz do envelhecimento dessas estruturas não seria adequado avaliar, de maneira individual, se os custos econômicos e sociais atuais justificam os serviços os quais essas estruturas se destinam? A resposta está no nível de conhecimento que temos sobre elas para que possamos apoiar essa decisão.

 

Márcio Leão

É Pós-Doutor em Geotecnia pela UFV, Doutor em Geologia de Engenharia pela UFRJ, Doutorando em Geotecnia pela UERJ, Mestre em Geotecnia pela UERJ, Mestre em Geologia de Engenharia pela UFRJ, possui MBA em Gestão de Projetos pela USP e Bacharel em Geologia pela UFRJ. Geólogo com 13 anos de experiência em planejamento de obras de arte de engenharia civil, nacionais e internacionais. É Docente de Graduação e Pós-graduação. É Pesquisador e Consultor nas áreas de Geologia de Engenharia e Geotecnia, com ênfase em mecânica das rochas, mecânica dos solos, barragens, túneis, taludes e meio ambiente, investigações de campo e ensaios de laboratório e in situ, bem com instrumentação geotécnica. É Membro de Comissões Técnicas, de Corpo Editorial e Revisor Ad hoc de Periódicos nacionais e internacionais.

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