A má interpretação e a subutilização do Sistema de Gerenciamento de Banco de Dados Geocientíficos (SGBDG)

por Fernanda Nishiyama em 31/Jul/2019
A má interpretação e a subutilização do Sistema de Gerenciamento de Banco de Dados Geocientíficos (SGBDG)

Em primeiro lugar, é muito comum em interpretar o próprio nome da área de banco erroneamente: um sistema de gerenciamento de banco de dados não se resume somente ao software utilizado para depósito dos dados de geologia.

O Sistema de Gerenciamento de Banco de Dados Geocientíficos (SGBDG) compreende desde o planejamento da coleta do dado primário (mapeamento ou planejamento de sondagem, por exemplo), o procedimento da coleta, a própria coleta e disposição destes dados, tanto dados físicos (o próprio testemunho de sondagem e amostras) como dados digitais (resultados analíticos), o repositório central deles (galpão ou data warehouse - envolver TI), a sua distribuição para os clientes, o controle de acesso ao repositório, o monitoramento e controle de transação dos dados, materiais, mapas e documentos.

Outro erro é achar que o Banco de Dados Geocientíficos é somente para a Geologia (sondagem, amostragem e “QAQC”). Na verdade, ele é multidisciplinar, uma vez que pode (e deve) armazenar dados das áreas de Geologia, Controle de Área e Direito Minerário, Meio Ambiente, Hidrogeologia e Geometalurgia (quando tratados como áreas distintas da Geologia), Barragem, e até mesmo os modelos utilizados na área de Recursos e Reservas podem ser armazenados no Banco de dados, mesmo que sejam dados não-primários.

Como é uma área multidisciplinar, o SGBDG é um sistema “vivo”, muitas pessoas podem entrar e sair com dados do banco, portanto é necessário que tenha um responsável por este “organismo”. A maioria das grades empresas de mineração no Brasil já tem seu SGBDG, ainda que não tenha uma equipe (ou até mesmo uma pessoa) dedicada ao banco.

Os agentes SGBDG podem ser confundidos entre si ou acumular funções de outras áreas, fazendo com que seu trabalho não seja efetivo. Mas quem são estes agentes? Como eles vivem? Como eles comem?...

  • DA (data administrator) ou o administrador dos donos ou “dono” do dado – deve conhecer os dados, de onde vêm e para onde vão, e deve ter um cargo gerencial, pois responde por eles.

Esta figura, na verdade, não existe na mineração. Suas atribuições são distribuídas entre o gerente da Geologia e/ou Exploração, o geólogo responsável pela campanha de sondagem (CP, MP e/ou LP), geólogo responsável pelo galpão e o DBA. A conclusão é a seguinte: dado com muitos responsáveis é igual a cachorro com muitos donos: morre de fome.

  • DBA (database administrator) ou o administrador do banco de dados, que, em geral, é o responsável pelo software que armazena os dados coletados. Ele deveria ser o ponto central entre o DA e os demais usuários.

A realidade: ou ele é um profissional de TI, que não entende muito dos dados coletados e, portanto não tem autonomia para decidir quais coleções serão afetadas em caso de alteração na estrutura do banco (que, geralmente, são solicitadas pelos os usuários), deixando um suporte moroso, pois depende de outros profissionais para atender às solicitações.

Ou ele é da área Geologia, Geografia, Engenharia de Minas ou até Matemática/Estatística, que entende dos dados, e entende tanto que o gerente pede para que ele não tome conta somente do banco, mas também do galpão, da descrição, da amostragem, faça o QAQC e que também fiscalize as sondas. Enfim, a única coisa que ele não fará, certamente, é olhar para o banco de dados.

Ou ele também pode ser da área técnica sem capacitação para tratar o banco de dados. Um profissional bem-intencionado, mas com pouco conhecimento, pode não somente fazer errado, mas também estragar o que já havia sido feito corretamente.

  • Os demais usuários podem ser coletores (ou produtores) e clientes.

Os coletores ou produtores são os que coletam efetivamente o dado, e responsáveis por ele: sondador, fiscal de sondagem, descritor, amostrador, técnico do laboratório etc.

Os clientes são os profissionais que vão utilizar os dados para suas análises, transformando-os em informações para tomada de decisões importantes à organização. Exemplos: qualified person, competent person etc.

Estas más interpretações sobre todos os componentes do Sistema de Gerenciamento de Banco de Dados Geocientíficos, e sua subutilização, podem gerar atrasos nas entregas, inconsistências nos dados e retrabalho, diminuindo a confiança na informação e aumentando o risco do negócio.

No momento em que as empresas se conscientizarem e tratarem a “disciplina” banco de dados como deve ser tratada, elas começarão a ver o banco como valor, como investimento, e não ter a certeza de que, por enquanto, é somente um custo mesmo.

Fernanda Nishiyama

Graduada pela Universidade de São Paulo e tem 15 anos de atividade na indústria mineral, com especialização em implementação e gerenciamento de banco de dados geológicos, vasto conhecimento em mapeamento de processos e sólida experiência nas áreas de direito minerário e controle de áreas de interesse, e treinamento de equipes. 
Além disso, Fernanda auxiliou as equipes de desenvolvimento do gerenciador de banco de dados da Datamine (GDMS Fusion), sendo ponte cliente-desenvolvedor e tester. Realizou treinamentos de modelagem geológica para pequenas e grandes equipes, e usuários e administradores de banco de dados geológicos.
Fernanda Nishiyama é registrada no CREA e também é capacitada no GIM Suite ACQ 1000, da acQuire Solutions, e GeoExplo, da LeapMind-Coffey-Tetra Tech. Atualmente, Fernanda cursa pós-graduação latu sensu em Gerenciamento de Projetos no IEC-PUC Minas.

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