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A Jornada ESG da Empresa, em busca da dupla materialidade | Como impactos, riscos e estratégia se conectam na lógica da ABNT PR 2030

Instituto Minere

1. Introdução – Por que falar em jornada ESG (e não em ações isoladas)

Não é novidade que nos últimos anos, o ESG passou a ocupar espaço relevante no discurso corporativo. Relatórios, compromissos públicos, políticas internas e iniciativas pontuais se multiplicaram. Ainda assim, em muitas organizações, ESG continua sendo tratado como um conjunto de ações desconectadas, um checklist de boas intenções ou, no pior dos casos, um instrumento de reputação. Esse entendimento é insuficiente — e perigoso. ESG, quando reduzido a ações isoladas, não altera decisões, não reduz riscos estruturais e não constrói valor no longo prazo.

É justamente para romper com essa visão fragmentada que se introduz o conceito de jornada ESG. Falar em jornada significa reconhecer que tratar de forma integrada o ambiental, o social e a governança é um processo de gestão contínuo, integrado à estratégia de gestão e à tomada de decisão da empresa. Não se trata de um projeto com início, meio e fim, tampouco de uma certificação a ser obtida, mas de um caminho evolutivo, baseado em método, liderança e aprendizado organizacional. A jornada pressupõe diagnóstico, escolhas, priorizações e amadurecimento progressivo das práticas, sempre conectadas ao contexto e ao modelo de negócio da organização.

Para os gestores, esse enquadramento é essencial. A jornada ESG dialoga diretamente com gestão de riscos, alocação de capital, resiliência operacional, licença social para operar e perenidade do negócio. Nesse contexto, surge um ponto central: não existe jornada ESG consistente sem um critério claro de foco e prioridade. É aqui que a materialidade — e, em especial, sua evolução para a dupla materialidade — se estabelece como o eixo estruturante da jornada. É ela que separa o ESG retórico do ESG estratégico, capaz de orientar decisões relevantes e sustentar a criação de valor no longo prazo.

2. O que se entende por “Jornada ESG” a partir da ABNT PR 2030

Diversos são os frameworks possíveis para estruturar o ESG, mas observando com atenção a Prática Recomendada ABNT PR 2030-1, fica claro que o principal valor da norma não está em oferecer um roteiro mecânico de ações, mas em reposicionar o ESG como lógica de gestão. A norma parte de um pressuposto simples — e muitas vezes ignorado: ESG só faz sentido quando orienta decisões estratégicas, e não quando é tratado como um conjunto de iniciativas paralelas ou desconectadas do negócio.

Sob essa ótica, a chamada jornada ESG pode ser compreendida como o processo pelo qual a empresa passa a incorporar critérios ambientais, sociais e de governança de forma estruturada e progressiva em sua estratégia, na governança e na operação. Trata-se de um movimento contínuo de amadurecimento, no qual a organização aprende a reconhecer riscos e oportunidades, fazer escolhas conscientes e ajustar sua atuação ao longo do tempo. Para muitos setores e empresas isso ainda está em construção, mas é um caminho sem volta.

A experiência prática — e a própria lógica da ABNT PR 2030 — mostram que essa jornada não começa com indicadores ou relatórios, mas com intenção estratégica. É nesse ponto que a alta administração define o papel do ESG para o negócio: se será apenas um requisito reputacional ou um elemento real de direcionamento estratégico. A partir daí, a organização precisa compreender sua realidade, avaliando onde está, quais práticas já existem e quais riscos e impactos são mais relevantes no seu contexto específico.

Nesse processo, o que diferencia uma jornada ESG consistente de um conjunto de boas intenções é a capacidade de fazer escolhas conscientes. Nenhuma organização consegue tratar todos os temas ESG com o mesmo nível de profundidade e prioridade. Por isso, a lógica da jornada conduz inevitavelmente à materialidade, entendida como o mecanismo que transforma complexidade em foco, e discurso em decisão. É a partir dela que o ESG deixa de ser genérico e passa a ser estratégico.

Uma vez definidos os temas prioritários, a jornada avança para a integração desses temas à gestão: planejamento, definição de metas, responsabilidades, execução, acompanhamento e ajustes. Não como um ciclo burocrático, mas como parte do próprio sistema decisório da empresa.

O elemento que sustenta todo esse processo é a liderança. Sem o envolvimento efetivo da alta administração, a jornada ESG se fragmenta e perde coerência. ESG não se consolida por delegação operacional; ele exige direcionamento, supervisão e coerência entre discurso e prática.

Assim, mais do que uma sequência de etapas, a jornada ESG deve ser entendida como um sistema vivo de gestão, no qual critérios ESG passam a influenciar decisões relevantes, reduzir riscos estruturais e contribuir para a criação de valor sustentável.

3. Materialidade: o ponto de inflexão da jornada ESG

Se a jornada ESG é um processo de amadurecimento da gestão, a materialidade é o seu ponto de inflexão. É nesse momento que ESG deixa de ser um discurso genérico sobre “boas práticas” e passa a se tornar um instrumento efetivo de decisão empresarial. Sem materialidade, não há foco; sem foco, não há estratégia; e, sem estratégia, não existe ESG estruturado.

A materialidade é a base para identificação e priorização dos temas ESG relevantes, a partir da análise de impactos, riscos e oportunidades associados às atividades da organização e às expectativas de suas partes interessadas. Em essência, materialidade não trata de listar todos os temas possíveis, mas de reconhecer quais realmente importam, considerando o contexto do negócio, sua cadeia de valor e os efeitos gerados ou sofridos pela empresa.

Esse ponto é crucial, porque um dos erros mais comuns nas iniciativas ESG é a tentativa de “fazer tudo ao mesmo tempo”. Essa abordagem, além de inviável do ponto de vista operacional e financeiro, dilui esforços, gera frustração interna e produz resultados pouco relevantes. ESG não é sinônimo de abrangência indiscriminada; é sinônimo de escolha consciente.

Quando bem conduzida, a materialidade cumpre um papel central na gestão empresarial. Ela funciona como um filtro estratégico que permite transformar a complexidade do universo ESG em prioridades claras. É a partir desse processo que a jornada ESG ganha coerência interna. Planejamento, metas, indicadores e ações deixam de ser genéricos e passam a refletir aquilo que é, de fato, crítico para a organização e para seu entorno.

Mais do que uma etapa técnica, a materialidade representa uma mudança de postura. Ela marca o momento em que a empresa aceita que ESG não é sobre atender a todas as expectativas, mas sobre assumir responsabilidades proporcionais aos seus impactos e à sua realidade, criando as bases para uma gestão mais madura. É justamente a partir desse ponto que a discussão evolui para um conceito ainda mais robusto: a dupla materialidade, que aprofunda e qualifica essa lógica de priorização.

4. Da materialidade à dupla materialidade: a evolução natural da jornada

À medida que a jornada ESG amadurece, a simples identificação de temas relevantes já não é suficiente. A complexidade dos riscos e impactos contemporâneos exige uma leitura mais sofisticada da materialidade, capaz de captar não apenas o que afeta a empresa, mas também o que a empresa provoca em seu entorno. É nesse contexto que emerge a dupla materialidade como uma evolução natural — e necessária — da gestão ESG.

A materialidade financeira concentra-se nos temas ESG que influenciam diretamente o desempenho econômico-financeiro da organização. São riscos e oportunidades que afetam resultados, ativos, passivos, acesso a capital, custos operacionais e a própria continuidade do negócio. Questões como mudanças climáticas, governança corporativa, integridade, segurança operacional ou gestão de pessoas deixam de ser periféricas e passam a integrar a análise estratégica de riscos.

Já a materialidade de impacto amplia o olhar para os efeitos que a atividade da empresa gera sobre o meio ambiente e a sociedade. Trata-se de compreender impactos positivos e negativos sobre recursos naturais, comunidades, direitos humanos, saúde e segurança, cadeias produtivas e territórios. Esses impactos, ainda que nem sempre se traduzam imediatamente em números financeiros, afetam reputação, confiança, legitimidade e a chamada licença social para operar.

A dupla materialidade integra essas duas perspectivas em um único raciocínio estratégico. Ela reconhece que os impactos da empresa sobre o mundo (inside-out) e os impactos do mundo sobre a empresa (outside-in) são interdependentes e se retroalimentam. Ignorar qualquer um desses vetores produz análises incompletas e decisões frágeis. Incorporar ambos, por outro lado, permite uma visão mais realista dos riscos, das oportunidades e das responsabilidades corporativas.

Essa abordagem posiciona a jornada ESG em sintonia com as melhores práticas internacionais e com uma compreensão mais madura de sustentabilidade empresarial. A dupla materialidade não amplia a complexidade por sofisticação conceitual; ela a organiza, oferecendo um quadro mais fiel da realidade em que as empresas operam.

5. A dupla materialidade como instrumento de governança e decisão

Quando corretamente aplicada, a dupla materialidade deixa de ser um conceito abstrato e passa a funcionar como um instrumento prático de governança e tomada de decisão. Ela orienta o planejamento ESG ao indicar onde a organização deve concentrar esforços, investimentos e atenção da alta administração.

No plano estratégico, a dupla materialidade sustenta a definição de objetivos, metas e indicadores, garantindo que esses elementos estejam conectados a riscos e impactos relevantes, e não a agendas genéricas. No plano da governança, ela fortalece o papel dos conselhos e da alta gestão, ao oferecer uma base estruturada para supervisão, priorização e alocação de recursos.

Do ponto de vista prático, esse enfoque permite, por exemplo, diferenciar temas que exigem ações imediatas daqueles que demandam monitoramento, bem como identificar oportunidades de inovação, eficiência operacional ou fortalecimento reputacional. A dupla materialidade também contribui para uma leitura mais clara da licença social para operar, ao evidenciar quais impactos são mais sensíveis para comunidades, reguladores e demais partes interessadas.

É por isso que a ABNT PR 2030 trata a materialidade — e sua evolução para a dupla materialidade — como a base do sistema ESG. Sem esse alicerce, o planejamento tende a ser disperso, a governança perde foco e os relatórios se tornam meramente descritivos, desconectados da gestão real do negócio.

A adoção da dupla materialidade não é um exercício de sofisticação gratuita, nem um modismo conceitual. Ela é, sobretudo, um indicador de maturidade organizacional.

Nos níveis iniciais, é comum que a atuação se limite ao cumprimento legal ou a respostas reativas a exigências externas. Em um segundo momento, surgem ações dispersas, muitas vezes bem-intencionadas, mas pouco integradas à estratégia e à governança. Somente em estágios mais avançados o ESG passa a ser tratado de forma estruturada e estratégica, influenciando decisões relevantes e sendo incorporado aos sistemas de gestão.

A dupla materialidade é característica desse estágio mais maduro. Ela pressupõe capacidade analítica, governança ativa, diálogo estruturado com partes interessadas e disposição para assumir escolhas difíceis. Organizações que chegam a esse ponto compreendem que ESG não é um apêndice da gestão, mas um elemento central da estratégia e da perenidade do negócio.

6. Conclusão – ESG não é discurso: é método, escolha e prioridade

A jornada ESG é, por definição, um processo contínuo, que exige método, coerência e evolução constante. Nesse caminho, a materialidade — e, de forma ainda mais consistente, a dupla materialidade — não deve ser vista como um exercício de comunicação ou conformidade, mas como um instrumento de decisão.

Empresas que tratam ESG como narrativa aumentam sua exposição a riscos, perdem competitividade e fragilizam sua governança. Em contrapartida, organizações que estruturam sua jornada com base em prioridades claras, escolhas conscientes e critérios técnicos constroem resiliência, fortalecem a confiança das partes interessadas e criam valor sustentável no longo prazo.

ESG, em última instância, não é sobre fazer mais. É sobre fazer o que importa — com método, responsabilidade e visão estratégica.

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Guilherme Fonseca Lima

Sócio do escritório Fonseca Lima & Bastos

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